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Scliar, Carlos (1920 - 2001) Nascimento/Morte 1920 - Santa Maria RS - 21 de junho 2001 - Rio de Janeiro RJ - 28 de abril «Você sabe de onde eu venho ?» Norte da Itália, 8 de maio de 1945. As boas novas explodem como uma bomba e incendeiam os ânimos, nos vários alojamentos dos pracinhas brasileiros, dentro do campo de operações: A guerra acabou! Havia uma semana que Adolf Hitler morrera e a Alemanha nazista, com sua capacidade ofensiva minada e sem condições de prosseguir na aventura que, durante cinco anos, ensangüentou o mundo, assinava o armistício, pondo fim a um conflito do qual, nos últimos nove meses, o Brasil participara intensamente. As lembranças pesavam e muito. Há exatos 18 dias, nossos pracinhas haviam tomado Montese, um dos últimos redutos alemães na Itália e essa batalha nos custara 34 mortos, 382 feridos e 10 extraviados, e mais baixas ocorreriam nos dias seguintes, na operação de rescaldo, quando foram tomados alguns pontos estratégicos à volta desse sítio. No balanço geral, mais de quinhentos valorosos soldados brasileiros deixaram suas vidas no campo de batalha na defesa de um mundo livre. Depois, em 28 de abril, o comando brasileiro aceitava a rendição da 148ª Divisão Alemã e o que ainda restava da Divisão Bersaglieri da Itália. Encurraladas pela fome e sem perspectiva, elas se entregaram, e a FEB fazia, a um só tempo, quase 20 mil prisioneiros, incluindo os dois generais que comandavam as divisões. «Sem que volte para lá» Agora, o pesadelo havia acabado de vez. Neste momento, o Brasil, embora separado da Itália pelo imenso oceano, parecia bem mais perto. O que ainda permanecia longo era o tempo. Os acertos de natureza burocrática, a viagem para Francolise, no Sul do país, em estradas precárias, e a espera dos navios-transporte que zarpariam de Nápoles, ainda tomariam pelo menos dois meses, que eram contados segundo a segundo, numa angústia que parecia nunca cessar. Treze de maio. Na suntuosa Catedral de Alessandria se aglomeram oficiais, praças e soldados. Divisas à parte, todos se confraternizam em missa cantada solene, para prestar uma última homenagem aos pracinhas que tombaram em campo de batalha. Após o comovente sermão do capelão, e ao som do coral italiano, o marechal Mascarenhas de Morais deposita, em um túmulo simbólico montado junto ao altar, uma coroa de flores, última homenagem daqueles que se iam, para aqueles que não mais voltariam a ver a terra natal. «Nossa vitória final» Nos dias que se seguiram, oficiais superiores participavam de homenagens e banquetes, enquanto praças e soldados foram liberados para visitas a cidades vizinhas e, os que quisessem, poderiam até atravessar a fronteira com a França, não muito distante. Um coronel comenta: «Já viu quando se soltam cabritos, depois de uma longa prisão? É a mesma coisa. Passeios, bailes e uma infiltração no meio da italianada.» Finalmente, em 6 de julho de 1945, os primeiros 5.000 soldados deixavam o porto de Nápoles pelo navio-transporte «General Meiggs». Outras viagens se seguiriam ainda em julho, utilizando os navios americanos. Ao final do mês, os remanescentes saiam da Itália pelo vapor D. Pedro I e neste contingente se achava o cabo de artilharia Carlos Scliar, saudoso da Pátria, deixando para trás uma porção de amigos italianos, que talvez nunca mais reencontraria e, quem sabe, alguma paixão recolhida, cortada em seu caminho pela força do destino. Os que chegaram primeiro cumpriram seu último compromisso oficial. Na tarde de 18 de julho de 1945, os pracinhas brasileiros, com o símbolo da «cobra fumando» estampado nos uniformes, desfilavam pelas ruas cariocas, acompanhados de um pequeno contingente de expedicionários americanos que vieram ao Brasil participar da festa da vitória. Depois, a desmobilização. Fechava-se uma página da vida e abria-se outra, na vida civil, onde cada um procurava recolher os salvados de incêndio, para recomeçar a vida no ponto em que ela fora interrompida para atender o chamado da pátria. Um artista precoce Carlos Scliar nasceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1920, e faleceu no Rio de Janeiro em 28 de abril de 2001. De espírito incontrolável, bem cedo na vida revelou sua vocação para a comunicação, o desenho e a pintura. Não tinha mais que 11 anos quando começou a publicar seus primeiros artigos ilustrados e, aos 14 anos, recebia do pintor austríaco Gustav Epstein as primeiras aulas de arte. Em 1935, já em Porto Alegre, após participar da Exposição do Centenário Farroupinha, começou a sentir o mesmo problema que ocorria em todos os centros artísticos do país, qual seja, a luta sem fronteiras entre a arte acadêmica, fechada nos cânones do neoclassicismo e a renovação, que se desenvolvia à margem da Escola de Belas-Artes. Nesse ambiente de contestação à arte oficial, em 1938 Scliar participou, com João Fahrion, da fundação da Associação Antônio Francisco Lisboa, da qual foi eleito secretário. Depois, foi a São Paulo, juntando-se a Rebolo e aos artistas do Grupo Santa Helena, para participar da exposição da Família Artística Paulista, que era também um movimento de contestação aos acadêmicos. Recordações da FEB Animado com o relativo sucesso obtido pela Família Artística Paulista, em uma mostra realizada no Rio de Janeiro, Scliar inscreve-se no Salão Nacional de Belas Artes, onde conquista medalha de prata. Mostrando sua propensão para a gravura e para as artes gráficas, participa da impressão do álbum «35 Litografias», em associação com Aldo Bonadei, Clóvis Graciano, Lívio Abramo e mais outros artistas. Não tardaria em publicar seu próprio álbum, a que deu o título de «Fábulas». Em 1943, convocado para a Força Expedicionária Brasileira, seguiu para o Rio de Janeiro e, nessa oportunidade, tomou contato com a pintora Maria Helena Vieira da Silva e seu marido, o pintor Arpad Szenes, que moravam no bairro da Glória e se achavam no Brasil como refugiados de guerra. Em 22 de setembro de 1944, segue para a Itália com o 2º Escalão da FEB, comandado pelo general Cordeiro de Farias, e de lá só voltaria, como sabemos, em julho de 1945. Não foi nenhuma viagem de recreio. Ao retornar, trouxe consigo profundas recordações de sua passagem pelos campos de batalha. Orgulhoso da FEB, retratou a si mesmo e a outros companheiros fardados. Observador atento, desenhou casas e imagens do Norte da Itália, formando a série «Com a FEB na Itália», exibida no Rio de Janeiro, em São Paulo e Porto Alegre. Atividade incessante Em 1947,vai à Europa, desta vez, em viagem de estudos, trabalho e manifestações políticas, percorrendo a França, Itália, Tchecoslováquia, Polônia, Portugal e outros países, com sua atenção voltada particularmente à gravura e às artes gráficas. De retorno ao Brasil, inicia uma nova fase de sua carreira, dedicando-se à pintura e à gravura e participando, como artista, das atividades de imprensa. Em Porto Alegre, integrou a equipe que formulou a feição gráfica da revista «Horizonte». No Rio e em São Paulo, participou de outros empreendimentos gráficos, como o lançamento da revista «Senhor». Depois, alternou sua permanência entre Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Ouro Preto. Tem participado constantemente de exposições no Brasil e em todos os centros artísticos mundiais, registrando sempre absoluto sucesso. Ativista social, engajou-se em vários movimentos, como o 1º Congresso da Juventude Democrática, na Tchecoslováquia e em manifestações brasileiras, seja produzindo cartazes, seja ilustrando livros e revistas. Gravurista por opção, apaixonou-se pela serigrafia, em cuja técnica desenvolveu várias séries. Aliás, uma das importantes características de Carlos Scliar é a sua capacidade de inovar, buscando novos materiais que lhe sirvam de base e técnicas as mais variadas, desde têmpera até o acrílico, passando pelas artes gráficas. Pintou quadros, mas também fez murais e até ilustrou vários bilhetes da Loteria Federal, premiados com sua arte. Percorrer a obra de Carlos Scliar é, pois, um saudável e reconfortante passeio pela história da evolução da pintura em nosso país, sendo um programa obrigatório para quem pretenda conhecer o desenvolvimento da arte no Brasil. (Texto de Paulo Victorino). . Fonte Site Pitoresco
Formação 1929/1938 - Porto Alegre RS - Colégio Júlio de Castilho 1934 - Porto Alegre RS - Estuda com Gustav Epstein 1941/1947 - Convive com os pintores Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes 1947/1950 - Paris (França) - Cursa gravura com Galanis na École des Beaux-Arts 1949 - Troca correspondência com o gravador mexicano Leopoldo Mendez Cronologia Desenhista, gravador, pintor, ilustrador, cenógrafo, roteirista e designer gráfico 1920/1939 - Porto Alegre RS - Vive nessa cidade 1938 - Porto Alegre RS - É um dos ilustradores da Revista do Globo 1938 - Porto Alegre RS - Funda a Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa 1939 - São Paulo SP e Rio de Janeiro RJ - Estabelece contatos com vários artistas - Flávio de Carvalho, Joaquim Figueira, Candido Portinari, Roberto Burle Marx e Eurico Bianco 1939/1947 - São Paulo SP - Vive nessa cidade 1940 - São Paulo SP - Colabora na revista Cultura 1940 - São Paulo SP - Integra-se ao grupo da Família Artística Paulista 1941 - Bahia - A convite de Jorge Amado viaja para esse estado 1942 -São Paulo SP e Rio de Janeiro - Publica seu primeiro álbum de litografias, Fábulas, e são editados os livros As Águas Não Têm Memória, de Clóvis Assumpção, e o romance Almas Penadas, de Pedro R. Wayne, ambos ilustrados pelo artista 1943 - Rio de Janeiro RJ - Cria cenário para o Balé Telegráfico, de Sanção Castelo Branco 1943 - Rio de Janeiro RJ - Elabora texto para o documentário cinematográfico Segall, de Rui Santos 1943 - Rio de Janeiro RJ - Participa do júri do Salão Nacional de Belas Artes - Divisão Moderna 1944 - Rio de Janeiro RJ - Realiza o documentário Escadas, sobre os pintores Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva 1944/1945 - Itália - Convocado pela FEB participa da 2ª Guerra Mundial 1945 - Florença (Itália) - Prepara a paginação do número especial do jornal da FEB, Cruzeiro do Sul 1946 - Dirige e pagina a Revista de Arte, suplemento da revista Leitura 1946 - Faz desenhos para o documentário 24 Anos de Luta, de Rui Santos 1947 - Participa dos movimentos na defesa da paz entre os povos 1947/1950 - Paris (França) - Fixa residência em Paris, viajando pela Itália, Inglaterra, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Polônia e Portugal 1948 - Praga (Tchecoslováquia, atual República Tcheca) - Participa como delegado brasileiro no 1º Congresso da União Mundial do Cinema Documentário 1948 - Wroclaw (Polônia) - Participa do Congresso dos Intelectuais pela Paz 1948/1950 - Paris (França) - Realiza ilustrações para a revista Cahiers d´Arts e Les Lettres Françaises 1949 - Paris (França) - Publica o álbum de gravuras Les Chemins de La Faim, com apresentação de Jorge Amado 1950 - Porto Alegre RS - Com Vasco Prado funda o Clube de Gravura de Porto Alegre 1950/1956 - Porto Alegre RS - Na volta da Europa, após breve permanência no Rio de Janeiro 1951 - Motevidéu (Uruguai) - Participa da Conferência Continental pela Paz 1952 - Rio de Janeiro RJ - Integra o álbum Gravuras Gaúchas, Prêmio Pablo Picasso da Paz 1953 - Holanda, Tchecoslováquia, Polônia e União Soviética - Viaja com uma delegação cultural 1953 - Tel Aviv (Israel) - É editado o romance Seara Vermelho, de Jorge Amado, sob o título Sarke Haraav, com ilustração do artista 1956 - Porto Alegre RS - Publica o álbum 5 Gravuras Originais em Camfeu - 2º prêmio da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura 1956 - Rio de Janeiro RJ - É consultor plástico do Orfeu da Conceição, peça teatral dirigida por Léo Jusi 1956 - Rio de Janeiro RJ - Ilustra a obra Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes 1956 - Rio de Janeiro RJ - Vive nessa cidade 1957 - Elabora cartazes para o filme Rio Zona Norte e programas para o Teatro Nacional de Comédia 1958/1960 - Rio de Janeiro RJ - É diretor do departamento de arte da revista Senhor 1962 - Rio de Janeiro RJ - Funda a editora Ediarte com Gilberto Chateaubriand, José Paulo Moreira da Fonseca, Michel Loeb e Carlos Nicolaievski 1965 - Paris (França) - É tema de reportagem para a série Retratos do Brasil, destinada à televisão francesa, realizada por Pierre Kast 1966 - Rio de Janeiro RJ - Coordena a 1ª Feira de Arte no MAM/RJ 1967 - Paris (França) - Viaja para visitar a Exposição 85 Anos de Picasso 1967 - Rio de Janeiro RJ - É o primeiro artista plástico a gravar depoimento no MIS/RJ 1967 - Rio de Janeiro RJ - Executa painel na sede do Banco Aliança do Rio de Janeiro, atual Itaú 1968 - Rio de Janeiro RJ - Ilustra a obra A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector, publicada pela editora Sabiá 1969/1979 - Diversos documentários são realizados sobre sua obra, entre eles Ouro Preto e Scliar, de Antônio Carlos Fontoura (1969), Os Caminhos da Cor, de Adamastor Camará (1970), e Scliar, O Homem e sua Pintura, de Ruy Santos (1979) 1972 - Lança o álbum Scliar - Serigrafias 1973 - Rio de Janeiro RJ - Executa o painel Ouro Preto 180 Graus, para o Museu Manchete 1974 - Executa os painéis Porto Alegre Antigo, Porto Alegre Atual e Festa dos Navegantes para o Salão Nobre da Prefeitura Municipal 1977 - Rio de Janeiro RJ - Executa o painel Leia-Pense, para a Imprensa Oficial do Rio de Janeiro 1977- Lança o álbum de serigrafia Telhados de Ouro Preto 1986 - Ilustra o livro O Pintor que Pintou o Sete de Fernando Sabino 2000 - São Paulo SP - Vídeo Gravura e Gravadores, documentário dirigido por Olívio Tavares de Araújo, com depoimentos do artista e outros gravadores, produzido pelo Itaú Cultural Atualizado em 23/05/2005 Fonte: Itaú Cultural . .
Carlos Scliar morre aos 80 anos . Fonte: Agência Estado 28 de abril de 2001 (sábado) Rio de Janeiro - O artista plástico Carlos Scliar, de 80 anos, morreu na madrugada de hoje de falência múltipla dos órgãos. Ele sofria de diabetes, hipertensão e estava internado há 12 dias no Hospital Silvestre por problemas hepáticos que o vitimavam desde 1980. A pedido do pintor, seu corpo será cremado amanhã, e suas cinzas serão lançadas em praias de Cabo Frio, município da Região dos Lagos em que manteve ateliê desde os anos 60. A casa de Cabo Frio e outro ateliê em Ouro Preto serão transformados em institutos culturais para abrigar as 300 obras que Scliar colecionava - dele próprio e de amigos. Nascido em Santa Maria (RS) em 1920, o talento de Scliar veio à tona cedo. Aos 11 anos ele já colaborava com cadernos juvenis e infantis dos jornais Diário de Notícias e Correio do Povo. Foi pintor-amador da exposição Centenário Farroupilha (1935), e fez a primeira mostra individual de pintura em 1940. Trabalhou como consultor plástico do filme "Orfeu da Conceição", a convite de Vinícius de Moraes, em 1956. E foi diretor de arte da revista Senhor - um dos mais bem sucedidos projetos gráficos da história da imprensa brasileira. Mas somente a partir de 1960 Scliar conseguiu viver exclusivamente de sua arte, que mescla gravuras, colagens e pintura em vinil sobre tela. Scliar trabalhava incessantemente. Costumava dizer que o dia precisava ter 28 horas para dar conta de tudo o que precisava fazer. "Ele era um dínamo", descreve o filho, o museólogo Francisco José Medeiros Scliar. Em 1939, o escritor Rubem Braga, de quem era amigo, o descreveu como "um rapazola louro, tímido e orgulhoso, atacado da febre da pintura". Essa febre nunca arrefeceu. No ano passado, a exposição dos seus 80 anos, no Museu Nacional de Belas Artes, trazia trabalhos recentes. Entre eles, o álbum de serigrafias 1500/2000 - A Redescoberta do Brasil, no qual tecia comentários sobre diferentes momentos históricos da história do País. "Acho que eu represento o mundo em que vivo", disse em entrevista ao Estado, quando a mostra chegou à Pinacoteca do Estado, em março. Há alguns meses, o "dínamo" vinha perdendo potência. Os médicos descobriram um pequeno tumor no cérebro, que não foi responsável pela sua morte. "Ele passou os últimos meses vendo televisão, lendo, dormia muito", conta Francisco. Scliar morreu dormindo, às 5 horas de hoje. Além do filho, o pintor deixou três netos e dois bisnetos. Clarissa Thomé. Morre o mestre da pintura poética e política Carlos Scliar 1920 - 2001 . Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) 29 de abril de 2001 (domingo) Feroz na militância por transformações na sociedade e doce no trato pessoal e no apoio a artistas mais jovens, Carlos Scliar viveu até os 80 anos criando uma obra que bebia na fonte do cubismo, mas tratava esta referência de uma forma absolutamente pessoal. Nascido na gaúcha Santa Maria em 1920, o pintor morreu ontem (sábado), às 5h, no Hospital Silvestre, no Rio, de falência múltipla dos órgãos, em conseqüência de hepatite, diabetes e hipertensão. ''Scliar foi um exemplo de persistência ética, um batalhador pela arte e a cultura'', exaltou o artista plástico Luiz Ernesto, diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, instituição que teve em Scliar um aguerrido presidente da Associação de Amigos. Para Luiz Ernesto, a arte de Scliar era facilmente identificável, com uma marca forte, mas ainda assim surpreendente. ''Ele tinha um olhar poético sobre o cotidiano. Nunca fez uma arte panfletária, nunca seu trabalho foi ilustrativo de uma ideologia''. ''A fase inicial da obra dele é muito boa, e todo o trabalho de arte gráfica, também'', ressalta Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial. ''Scliar foi um grande artista e uma pessoa adorável, representante perfeito de uma época em que o cinismo era menor e em que o espírito de classe era maior''. Lauro lembra que, nos anos 70, Scliar costumava comprar desenhos de artistas jovens como Cildo Meireles, Artur Barrio e Luiz Alphonsus, praticamente viabilizando a carreira deles. Pode-se dizer que Carlos Scliar descobriu os primeiros traços da arte ainda na infância. ''A pintura entrou na minha vida a reboque da literatura. Eu escrevia histórias infantis e, na falta de alguém para ilustrar, fazia eu mesmo os desenhos. Acabei descobrindo que desenhava melhor do que escrevia'', contou em uma entrevista. Aos 11 anos começou a colaborar nos cadernos juvenis e infantis dos jornais gaúchos Diário de Notícias e Correio do Povo . Aos 15 anos, já participava da sua primeira exposição. Em 1944, quando já tinha relativa fama como artista plástico, Scliar foi convocado pela Força Expedicionária Brasileira para lutar na Itália. Muita gente foi contra, mas lutar ao lado dos aliados era ''uma questão de dignidade''. Nos 11 meses em que permaneceu na Itália, produziu cerca de 700 desenhos. ''Teria ficado maluco se não desenhasse durante a guerra. E os desenhos acabaram se tornando importantes porque marcaram uma virada. Antes, meu trabalho era muito social, influenciado por Segall e Portinari. Depois da FEB, passei a me concentrar nos objetos, na paisagem que nos cerca'', analisou ele, um especialista em naturezas-mortas. Depois da Guerra, Scliar voltou ao Brasil, deparou-se com a redemocratização pós-Vargas e inscreveu-se no Partido Comunista. Em 1947, seguiu para Paris. Além da intenção de estudar pintura, levava na bagagem uma carta de Luís Carlos Prestes como passaporte para ingressar no PC. O pintor chegou a morar com o escritor Jorge Amado. A intenção era ficar lá para sempre, mas voltou ao Brasil em 1950, quando percebeu que, apesar de ser filho de imigrantes, sua arte era brasileira. Sempre combativo, em 1954 participou do Salão em Preto-e-branco, protesto contra os altos impostos sobre a importação de tintas que chegou às paginas da revista Time. Dois anos depois, foi convidado por Vinicius de Moraes para ser consultor plástico de Orfeu da Conceição. Ainda nas artes gráficas, tornou-se, em 1958, diretor de arte da revista Senhor. ''Foi a chave de ouro do meu trabalho de artista gráfico. E neste momento, 1960, depois de 20 anos de trabalho, eu pude viver apenas dele'', ressaltou em uma entrevista. Parte da segunda geração de modernistas - um pouco mais jovem que Guignard e Cícero Dias -, só em 1960 Scliar passou a se dedicar apenas à pintura, também montando ateliês em Cabo Frio e Ouro Preto. Ativista, engajou-se na defesa da preservação das dunas das praias e do casario da cidade histórica mineira. Scliar começou a enfrentar problemas de saúde em 1980, quando fez uma cirurgia para colocação de pontes de safena e contraiu hepatite em uma transfusão de sangue. No ano passado, o pintor chegou a ficar um mês internado em um hospital depois do lançamento do álbum 1500/2000. A redescoberta do Brasil, produto que reuniu fotos, documentos, pinturas e gravuras de Scliar nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento. A representação do país em sua obra é ampla. Há desde uma tela dedicada à Batalha dos Guararapes aos favelados mortos na chacina de Vigário Geral, no Rio - obra feita a partir de uma primeira página do Jornal do Brasil. A última exposição de Scliar foi no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, em dezembro do ano passado. Batizada de Carlos Scliar 80 anos, ela retomava, na opinião do poeta e crítico Ferreira Gullar, o melhor caminho estético do pintor, aquele que descendia do cubismo e trabalhava com colagens de uma forma bem própria. ''Ele fez desse momento do cubismo uma linguagem muito pessoal, criou toda a sua obra a partir daí. Sua última exposição era excelente'', diz Gullar. Scliar - que tem um filho adotivo, três netos e dois bisnetos - será cremado amanhã, às 9h. O velório acontecerá no mesmo dia, meia hora antes, no crematório São Francisco Xavier, no Caju. Morre o artista plástico gaúcho Carlos Scliar . Fonte: Zero Hora - Porto Alegre 28 de abril de 2001(sábado) O artista plástico gaúcho Carlos Scliar morreu às 4h30min deste sábado no Hospital Adventista Silvester, no Rio de Janeiro, onde estava internado desde o domingo de Páscoa. O artista teve uma falência múltipla dos órgãos decorrente de problemas crônicos no fígado. Considerado o mais importante artista plástico gaúcho ainda em atividade, Scliar tinha 80 anos e era uma figura central da história da arte moderna brasileira. Sua formação combinava elementos clássicos do modernismo, como o cubismo, lições importantes oriundas de sua experiência como artista gráfico (é dele o projeto da revista Senhor, um dos mais bem-sucedidos da história da imprensa brasileira e ele foi também um dos ilustradores da Revista do Globo). Scliar foi também professor e entre seus alunos está Cildo Meireles, um dos expoentes da arte contemporânea no Brasil. Com mais de 60 anos de carreira, foi destaque em mostras coletivas e itinerantes no país e no Exterior. Recebeu os mais importantes prêmios em salões oficiais no Brasil. Há obras suas no MoMA de Nova York e no Museu de Belas Artes de Boston, ambos nos Estados Unidos. A vida de Scliar Scliar nasceu em julho de 1920, em Santa Maria, e realizou a primeira exposição individual em julho de 1940, em São Paulo. Radicado no Rio desde o final dos anos 40, o artista construiu ao longo do tempo uma carreira sólida e uma reputação inabalável. Fez pintura, gravura e desenho. Admitiu concessões apenas a seu espírito inquieto e a sua indignação política. Ele foi membro do Partido Comunista Brasileiro e participou de campanhas internacionais pela paz e contra a bomba atômica, ao lado de Pablo Picasso e Jorge Amado, seu amigo íntimo. Em 1945, Scliar juntou-se a um grupo de escritores, poetas, músicos e artistas plásticos bageenses que exploravam novas tendências em arte. Danúbio Gonçalves, Glauco Rodrigues, Glênio Bianchetti e Scliar se encontrariam mais tarde em Porto Alegre e em 1950 criariam o histórico Clube de Gravura. A partir daí, cada um trabalhando a seu modo, ingressaram no realismo regionalista e socialista. Em 1956, o Clube foi desfeito e os artistas tomaram rumos próprios, nas áreas de pintura, desenho e gravura. Mais tarde, Glauco e Scliar foram morar no Rio, e Glênio, em Brasília. Na metade dos anos 50, Scliar abandona a xilogravura e passa a dedicar-se à pintura e ao desenho. Em 1967, volta à gravura, através da serigrafia. O primeiro retrospecto de sua obra foi montado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, seguido de São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte. O ano passado foi de muitas comemorações para Scliar. Inaugurou duas exposições em Bolonha, na Itália, e enfrentou uma maratona de viagens e vernissages em comemoração aos seus 80 anos. O artista realizou exposições em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre. Scliar mantinha ateliês em Ouro Preto, Cabo Frio e Rio de Janeiro. Era apontado como um dos pilares da arte moderna no Brasil.
