
Dias, Cicero (1907 - 2003)
Nascimento/Morte
1907 - Escada PE - 5 de março - no Engenho Jundiá
2003 - Paris (França) - 28 de janeiro
Formação
1915 - Escada PE - Estuda desenho com a tia e com Eustógio Wanderley, que lhe ensina pintura a óleo
1920 - Rio de Janeiro RJ - É aluno interno no Mosteiro de São Bento
1925/1928 - Rio de Janeiro RJ - Freqüenta cursos de arquitetura e pintura na Escola Nacional de Belas Artes - Enba, mas não conclui nenhum deles. Dedica-se à pintura
1925/1928 - Rio de Janeiro RJ - Entra em contato com o grupo modernista
Cronologia
Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo, professor
1920/1937 - Rio de Janeiro RJ - Vive nessa cidade
1926 - Rio de Janeiro RJ - Começa a pintar aquarelas, publicadas em livro em 1993
1928 - Participa do Movimento Antropofágico, iniciado por Oswald de Andrade (1890 - 1954). Convive com Pagu, Anita Malfatti (1889 - 1964), Raul Bopp (1898 - 1984), Pedro Nava (1903 - 1984), entre outros
1928 - Rio de Janeiro RJ - Seu estúdio é freqüentado por Murilo Mendes (1901 - 1975), Di Cavalcanti (1897-1976), Tarsila do Amaral (1886 - 1973), entre outros pintores e poetas
1929 - Recife PE - Participa do Primeiro Congresso Afro-Brasileiro, movimento a favor da arte e da cultura, organizado por Gilberto Freyre (1900 - 1987)
1929 - Rio de Janeiro RJ - Colaborador da Revista de Antropofagia
1931 - Rio de Janeiro RJ - Expõe no Salão Revolucionário da Enba a obra Eu Vi o Mundo.... Ele Começava no Recife, causando grande escândalo
1932 - Recife PE - Monta ateliê em Madalena, onde leciona desenho
1933 - Recife PE - Realiza as ilustrações da primeira edição do livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre
1935 - Recife PE - Leciona pintura em seu ateliê
1937 - Rio de Janeiro RJ - Executa cenários e figurinos para o balé O Jurupari, de Villa-Lobos e Sérgio Lifar
1937/1942 - Paris (França) - Parte para Paris incentivado por Di Cavalcanti. Entra em contato com Georges Braque (1882 - 1963), Henri Matisse (1869 - 1954), Fernand Léger (1881 - 1955) e Pablo Picasso (1881 - 1973), de quem se torna amigo
1939 - Paris (França) - Fala nos estúdios da Radiodiffusion Nationale, em transmissões para a América do Sul
1942 - Vichy (França) - Preso pelos alemães, é enviado a um campo de concentração em Baden-Baden, na Alemanha. Liberto, passa a viver naquela cidade
1943/1945 - Lisboa (Portugal) - Adido cultural da Embaixada do Brasil
1943 - Lisboa (Portugal) - Publica trechos do seu romance autobiográfico Jundiá e seu ABC na revista luso-brasileira Atlântico
1944 - Lisboa (Portugal) - Realiza ilustrações para a Ilha dos Amores, de Camões, edição Montalvor
1944 - Mário de Andrade publica Cícero Dias e as Danças do Nordeste, com ilustrações do artista
1945 - Paris (França) - Retorna para Paris após o término da II Guerra Mundial
1945 - Paris (França) - Integra o grupo de artistas da Escola de Paris que expõe na Galeria Denise René
1948 - Nordeste do Brasil - Viaja com Rubem Braga (1913 - 1990), Mário Pedrosa (1900 - 1981), Orígenes Lessa (1903 - 1986) e José Lins do Rego (1901 - 1957)
1948 - Recife PE - Executa o mural do edifício da Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco, considerado o primeiro trabalho abstrato do gênero na América Latina
1949 - Reproduções de suas obras ilustram o artigo Le Mur, de Michel Seuphor, (sobre Murais) publicado na revista Art d'Aujourd'hui [Arte Hoje], dirigida por André Bloc
1950 - Espanha - Participa da fundação do Congresso da Escola de Altamira, ao lado de Braque, Miró e Artigas
1951 - Faz parte do Groupe Espace criado por André Bloc e Félix Del Mare que reúne arquitetos, construtores e artistas plásticos
1951 - Faz parte do grupo Klar Form, formado por Jean Arp (1886 - 1966), Bloc, Alexander Calder (1898 - 1976), entre outros
1954 - Biot (França) - Apresenta com o arquiteto Claude Parent maquete para o projeto de um museu moderno decorada com miniaturas de obras de Fernand Léger, Jean Arp, Alexander Calder e Alberto Magnelli (1888 - 1971)
1954 - Publicação de álbum com serigrafias de Cicero Dias e outros artistas pela Galeria Denise René
1955 - Grécia e Oriente Médio - Realiza viagem
1956 - Bruxelas (Bélgica) - Publicação da revista Quadrum, com artigo de Léon Degand, L´Abstraction Dite Géométrique sobre a pintura de Cícero Dias
1967 - Iugoslávia - Realiza viagem
1976 - Paris (França) - Luiz Miranda Correia realiza filme sobre Cicero Dias
1978 - Rio de Janeiro RJ - Realizado, pela Rede Globo de Televisão, filme sobre a vida e obra de Cicero Dias, com texto de Rubem Braga
1982 - Paris (França) - Publicação de La Grande Espérance des Poètes, obra de Lucien Scheller sobre a situação dos intelectuais franceses durante a guerra. O autor faz referência à participação de Cicero Dias nas trocas de correspondência entre a Resistência francesa e Londres
1982 - Recife PE - Participa do 3º Congresso Afro-Brasileiro
1983 - Recife PE - Realiza painel sobre a vida de Frei Caneca para a Casa da Cultura
1991 - Rio de Janeiro RJ - Inauguração da Sala Cicero Dias no Museu Nacional de Belas Artes - MNBA
1991 - São Paulo SP - Inaugura mural na estação do Metrô Brigadeiro
1998 - Paris (França) - Recebe do governo francês a Ordem Nacional do Mérito da França
2000 - Recife PE - Desenha o piso da Praça Marco Zero redenominada Praça Eu Vi o Mundo.... Ele Começava no Recife
2001 - Recife PE - Projeto da praça Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife
2001 - Recife PE - Publicação do livro Cícero Dias, Uma Vida pela Pintura, curadoria e editoria do galerista Valdir Simões de Assis Filho e texto do jornalista pernambucano Mário Hélio
Atualizado em 10/11/2005
Fonte: Itaú Cultural
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Morre Cícero Dias, o último
dos modernistas
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O problema
Estamos em fins de 1928. Um jovem aparentando vinte anos entra timidamente no gabinete de Graça Aranha, 60 anos, escritor já consagrado e membro da Academia Brasileira de Letras.
É o encontro de dois extremos. Um, já conseguira da vida tudo o que ambicionava. O outro, mal começando sua carreira, encontrava pelo caminho todos os embaraços e dificuldades.
O jovem explica a Graça Aranha seu problema. Revoltara-se com o reacionarismo da Escola Nacional de Belas Artes, que mantinha seus alunos presos em uma camisa-de-força, impedindo-os de experimentar outros caminhos que não os da arte tradicional.
Rompera, pois, com a escola, da qual demitiu-se. De temperamento agitado e com um mundo de idéias girando sobre sua cabeça, tinha reunido uma série de trabalhos em aquarela e óleo, os quais pretendia expor, mas encontrava todas as portas fechadas, num país ainda refratário à arte moderna.
O amigo certo
O jovem a que nos referimos era Cícero Dias, e não foi por acaso que, entre tantas outras pessoas de prestígio no Rio de Janeiro, ele escolhera justamente Graça Aranha (1868-1931) como seu patrocinador .
Em 1922, o escritor aderiu abertamente à Semana da Arte Moderna, criando uma cisão na quase monolítica Academia Brasileira de Letras e gerando nela uma polêmica como há muito tempo não se via.
Dois grupos de imortais se engalfinhavam, um deles liderado por Graça Aranha, que pretendia romper com o passado. O outro, mais sedimentado na velha estrutura, tinha como seu líder o escritor Coelho Neto (1864-1934). Os dois nordestinos, os dois maranhenses, os dois com uma força tremenda junto a seus pares. Eram conterrâneos ilustres, que agora não se entendiam, e que pretendiam levar suas posições até as últimas conseqüências.
Então, numa histórica sessão da Academia, no ano de 1924, deu-se o confronto fatal. Após discursos inflamados e uma discussão áspera entre ambos, diante de uma platéia numerosa, um grupo de jovens carregou Coelho Neto nas costas, enquanto outro grupo fazia o mesmo com Graça Aranha.
A primeira vez,
foi num hospício
E eis como as coisas se passaram. Graça Aranha deu ao jovem uma carta de apresentação ao oftalmologista dr. Moura Brasil (1846-1928), que tinha um espaço livre, pertencente à Policlínica, bem em frente à Galeria Cruzeiro.
Mas Moura Brasil não foi encontrado e uma nova carta foi feita, desta vez endereçada ao Dr. Juliano Moreira, que ficou encantado com o desenho que lhe foi mostrado e, então, ofereceu uma solução um pouco fora dos padrões convencionais.
Explicou que, estava sendo realizado um congresso internacional nas dependências do hospício e, se o jovem estivesse com todo material pronto, ele daria autorização para expor naquele local.
Foi assim que, de maneira inesperada, a primeira individual modernista de Cícero Dias deu-se dentro de um hospício, e as reações que se seguiram foram o que se pode chamar de «coisa de louco».
Como acontecera com Graça na Academia, assim estava ocorrendo com Cícero, no hospital. Tradicionalistas revoltados protestavam contra a exposição, enquanto médicos europeus que participavam do Congresso o elogiavam e estimulavam a prosseguir.
De tudo, foi possível apurar um saldo positivo. Primeiro, o escândalo trouxe divulgação e chamou atenção para a obra de Cícero Dias, ainda incipiente. Segundo, como nem todo mundo era contra, até que ele conseguiu vender alguns quadros.
«O povo não estranha»
Cícero Dias nasceu no Engenho Jundiá, município de Escada, a 50 quilômetros de Recife (PE), em 5 de março de 1907 e, bem cedo, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes, apresentou-se desde o início com um temperamento irriquieto e inconstante. Começou estudando escultura e, em pouco tempo, desistia dessa opção, trocando-a pela pintura, em cujo estudo também não permaneceu por muito tempo.
Seu grande interesse era experimentar novas tendências, idéia que o colocou em choque com a orientação severa da Academia. Pedindo, pois, seu desligamento, a partir de 1928 passou a estudar por conta própria e, nesse mesmo ano, realizou sua primeira individual, nas circunstâncias que já apontamos acima.
Em 1929, voltou à sua terra, fazendo uma exposição em Recife, onde causou o mesmo escândalo registrado no Rio de Janeiro. Formou, então, o conceito de que o problema estava nos grandes centros, que cultivavam preconceitos e, assim, tinham dificuldade em aceitar ou, pelo menos, testar novas propostas.
Para comprovar essa sua tese, realizou mais três exposições, desta vez no interior de Pernambuco, onde sua pintura foi aceita com mais facilidade.
«O povo não estranha,» concluiu ele, «quem estranha é o mal instruído, o burguês, mas o povo não.»
Livre como um grafiteiro
Desvinculado do ensino acadêmico, sua arte ganhou maior liberdade de expressão, aparentemente sem o fino trato que os pintores ortodoxos, em geral, dispensam aos seus quadros.
As pinturas de Cícero, no dizer de um crítico, eram formadas por «imagens soltas e mal construídas (...) através de uma linguagem como a dos primitivos, ou a das crianças».
Com o início da 2ª República (1930-1945), o arquiteto Lúcio Costa (1902-1999) assume a direção da Escola Nacional de Belas Artes e inicia um processo de renovação, não aceito por outros professores, que lhe criaram uma série de embaraços, resultando em sua demissão pouco tempo depois.
Mas, ao menos naquele ano de 1931, Lúcio Costa era diretor e abriu as inscrições para o Salão anual, liberando-o a todas as tendências de arte, e não apenas a acadêmica.
Cícero Dias aproveitou a oportunidade e não deixou por menos. Preparou uma tela com mais de vinte metros de comprimento e, tal como fazem os grafiteiros de hoje, pintou nela tudo que lhe ia pela imaginação, de cenas comuns, infantis, até cenas eróticas.
Não é preciso dizer que o escândalo se repetiu, desta vez, com danos materiais, pois o grande painel foi destruído em vários pontos, obrigando-o a fazer o restauro. Expurgadas as cenas mais fortes, o painel ainda ficou com 17 metros de comprimento.
Um cidadão do mundo
Havendo experimentado, em 1930, o «gostinho de Paris», quando lá esteve aproveitando uma bolsa de estudos, seus planos eram de mudar-se definitivamente para a Europa.
Em 1937 essa idéia foi reavivada, quando a situação brasileira se deteriorou com a implantação do Estado Novo, por Getúlio Vargas. Protestando contra essa violência, viajou a Paris e, pouco depois, conseguiu empregar-se nos escritórios diplomáticos do Itamarati.
Foi uma oportunidade de matar dois coelhos com uma só cajadada. Ao mesmo tempo em que resolvia seus problemas financeiros, encontrava também maior facilidade para estabelecer contato com os modernistas, tomando conhecimento daquilo que melhor se fazia de novo pela Europa, na vanguarda da arte.
Não durou muito. Em 1940, com o agravamento da Segunda Guerra Mundial, tornou-se prisioneiro e, assim que conseguiu sua libertação, tratou de viajar para Portugal, onde ficou até o fim do conflito.
Voltando à França, em 1945, participou do Groupe Espace, que acabava de ser fundado por um grupo de pintores adeptos do abstracionismo, com o apoio da Galeria Denise René.
Desde então, fixou residência na França, com freqüentes viagens ao Brasil e a Portugal, sem contar contatos com outros países onde seus quadros eram levados para participar de exposições.
Um artista amadurecido
Se a viagem de 1930 lhe proporcionou um primeiro contato com a arte européia, sua segunda estada, a partir de 1937, deu-lhe tempo para a consolidação de tendências.
O pintor dos anos 40 ia, aos poucos, se desvinculando da imagem desleixada ou da pintura tida como infantil. Desde então, fixou-se cuidadosamente no apuro dos traços, da cor, deixando de ser o pintor caboclo, voltado para os temas regionais e para a pintura popular.
Surge, então a nova e mais importante de Cícero Dias, que o consagrou internacionalmente. Foi convidado a participar de exposições em centros importantes de arte, como na Itália, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Bélgica e outros.
Não deixou de registrar sua presença, também, em todos eventos importantes na França, em Portugal, e no Brasil, aqui, particularmente no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife.
Os tempos passaram, as idéias foram se amoldando à evolução artística e sua pintura passou a ser recebida com entusiasmo nos mesmos centros que, outrora, o espezinharam.
É o preço a ser pago pelos precursores. Alguns morreram antes de ver a mudança. Outros, como Cícero Dias, tiveram a felicidade de viver por longos anos, o suficiente para colher os frutos de seu trabalho pioneiro.
Texto de Paulo Victorino
Fonte: Site Pitoresco