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| Título: |
Mulher com Gato |
| Artista: |
DI CAVALCANTI |
| Técnica: |
Pintura óleo s/ tela |
| Medida: |
89x116 cm |
| Ano: |
1966 |
| Comentários: |
ESTA OBRA FOI VENDIDA EM UM LEILÃO EM ABRIL DE 2005 PELO VALOR DE R$ 980.000,00 - DOLAR DA ÉPOCA (U$ 350.000) (fonte site Pitoresco).OBS.: ESTA OBRA NÃO ESTÁ A VENDA |
| Preço: |
Sob Consulta |
| Código: |
4076/1 |
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| Título: |
Mulatas |
| Artista: |
DI CAVALCANTI |
| Técnica: |
Outros |
| Medida: |
38x30 cm |
| Ano: |
s/d |
| Comentários: |
Gravura em metal HC |
| Preço: |
Sob Consulta |
| Código: |
5366/70 |
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| Título: |
Mulata com Pássaro |
| Artista: |
DI CAVALCANTI |
| Técnica: |
Gravura em litogravura |
| Medida: |
30x32 cm |
| Ano: |
s/d |
| Comentários: |
- |
| Preço: |
Sob Consulta |
| Código: |
5367/70 |
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| Título: |
Mulher |
| Artista: |
DI CAVALCANTI |
| Técnica: |
Gravura em serigrafia |
| Medida: |
40x49 cm |
| Ano: |
2010 |
| Comentários: |
- |
| Preço: |
R$ 3500.00 |
| Código: |
5954/94 |
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| Título: |
Mulher |
| Artista: |
DI CAVALCANTI |
| Técnica: |
Gravura em serigrafia |
| Medida: |
40x49 cm |
| Ano: |
2010 |
| Comentários: |
- |
| Preço: |
R$ 3500.00 |
| Código: |
5955/94 |
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O pintor Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo nasceu em 6 de setembro de 1897. Naquela época, o panorama das artes plásticas no Brasil era bastante desolador: a pouca informação, conjugada ao tradicionalismo conservador das elites vigentes deixavam o cenário da pintura a depender ainda de ecos das já ultrapassadas correntes artísticas européias.
Nesse contexto, tornaram-se muito importantes as exposições de Lasar Segall, em 1913, e de Anita Malfatti, em 1917, esta duramente criticada. Esses dois episódios fazem parte da história de um movimento em direção às correntes modernistas européias, que iria culminar na Semana de Arte Moderna de 1922. Di Cavalcanti já era um artista de talento bastante reconhecido nessa época, e sua atuação em 1922 foi essencial: o artista foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna e uma referência importantíssima para todo o grupo modernista e, desde então, para a história das artes plásticas no Brasil.
Di Cavalcanti era um intelectual muito bem informado sobre as vanguardas modernistas do seu tempo, interessado não só por artes plásticas, mas por outras áreas também. Por isso mesmo, em 1921, o artista fora convidado a ilustrar o livro “Balada do Cárcere de Reading”, de Oscar Wilde, um dos mais significativos escritores contemporâneos. Em 1923, Di Cavalcanti realiza viagem a Paris, freqüentando o ambiente intelectual e boêmio da época e convivendo com Picasso e Braque, entre outros, numa relação de admiração mútua. Sua experiência do contato com o cubismo, expressionismo e outras correntes artísticas inovadoras, conjugadas à consciência da sua posição de artista brasileiro, concorreram para aumentar a sua convicção no propósito de ousar e destruir velhas barreiras, colocando a arte brasileira em compasso com o que acontecia no mundo. Di Cavalcanti sabia estar no caminho certo esteticamente e a viagem a Paris só reforçou as suas certezas. Entretanto, o ambiente do pintor não era o dos boulevares de Paris: Di Cavalcanti estava impregnado dos trópicos, de uma atmosfera sensual e quente.
À sua ousadia estética e perícia técnica, marcada pela definição dos volumes, pela riqueza das cores, pela luminosidade, vem somar-se a exploração de temas ligados ao seu cotidiano, que ele percebia com vitalidade e entusiasmo. A profunda inclinação aos prazeres da carne e a vida notívaga influenciaram sobremaneira sua obra: o Brasil das telas de Di Cavalcanti é carregado de lirismo, revelando símbolos de uma brasilidade personificada em mulatas que observam a vida passar, moças sensuais, foliões e pescadores. A sensualidade é imanente à obra do pintor e os prostíbulos são uma de suas marcas temáticas, assim como o carnaval e a festa, como se o cotidiano fosse um permanente deleitar-se. A originalidade de uma cultura constituída por um caldo de referências indígenas, européias e africanas, de forma contraditória e única, transparece em suas telas através de uma luminosidade ímpar.
Marcada pela evolução constante em direção a uma técnica cada vez mais acurada, a obra de Di Cavalcanti pode ser situada numa tradição interpretativa do Brasil. Hoje, o pintor é um dos mais populares artistas brasileiros, alcançando enorme prestígio também no exterior: suas obras são disputadíssimas nos leilões internacionais, imprescindíveis a todas as coleções latino-americanas. A pintura de Di Cavalcanti representa toda uma imagem do país no mundo afora, ressaltando a sua exuberância natural e humana: é indiscutivelmente figura chave da arte brasileira. Todo o seu entendimento tem passagem obrigatória por Di Cavalcanti.
Formação
1903/1915 - Rio de Janeiro RJ - Realiza os primeiros estudos no Colégio de Aldéia Noronha e no Colégio Militar
1908 - Recebe aulas do pintor Puga Garcia (18-- - 1914)
1916 - Rio de Janeiro RJ - Entra para a faculdade de direito
1917 - São Paulo SP - Transfere-se para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco
1918 - São Paulo SP - Freqüenta o ateliê de Georg Elpons (1865 - 1939), pintor e professor alemão, filiado ao impressionismo europeu
1922 - São Paulo SP - Abandona o curso de direito
1923 - Paris (França) - Freqüenta a Academia Ranson
Cronologia
Pintor, ilustrador, caricaturista, gravador, muralista, desenhista, jornalista, escritor, cenógrafo
1900/1914 - Rio de Janeiro RJ - Mora no Bairro São Cristóvão
1914 - Publica seu primeiro trabalho como caricaturista na revista Fon-Fon
1915 - Ilustra a capa da revista A Vida Moderna
1917 - São Paulo SP - É revisor do jornal O Estado de S. Paulo
1917/1920 - São Paulo SP - Vive nesta cidade
1917/1976 - Ilustra livros de autores nacionais e estrangeiros, entre eles Álvares de Azevedo (1831 - 1852), Cassiano Ricardo (1895 - 1974), Guilherme de Almeida (1890 - 1969), Horácio Andrade, Jorge Amado (1912 - 2001), Manuel Bandeira (1886 - 1968), Mário de Andrade (1893 - 1945), Mário Mariani, Menotti Del Picchia (1892 - 1988), Newton Belleza, Oscar Wilde (1854 - 1900), Oswald de Andrade (1890 - 1954), Ribeiro Couto (1898 - 1963), Rosalina Coelho Lisboa, Sérgio Milliet (1898 - 1966)
1918 - São Paulo SP - É diretor artístico da revista Panóplia
1918 - São Paulo SP - Integra um grupo de artistas e intelectuais de São Paulo com Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, entre outros
1920 - Rio de Janeiro RJ - Ilustrador em várias revistas, inclusive na recém-criada revista Guanabara. Como cartunista utiliza-se do pseudônimo Urbano
1920/1976 - São Paulo SP e Rio de Janeiro RJ - Vive tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, com freqüentes estadas no exterior
1921 - São Paulo SP - Lança o álbum Fantoches da Meia-Noite, prefaciado por Ribeiro Couto e publicado por Monteiro Lobato (1882 - 1948), e ilustra A Balada do Enforcado, de Oscar Wilde
1922 - São Paulo SP - É o idealizadores e principal organizador da Semana de Arte Moderna. Ilustra a capa do programa e catálogo de exposição, realizada no Teatro Municipal
1923 - Itália - Viaja com o objetivo de conhecer as obras de alguns mestres italianos como Tiziano, Michelangelo e Leonardo Da Vinci
1923 - Paris (França) - É correspondente do Correio da Manhã do Rio de Janeiro
1923 - Montparnasse (França) - Monta pequeno ateliê
1923/1925 - Paris (França) - Fixa-se em Paris como correspondente do jornal Correio da Manhã, retorna ao Rio de Janeiro, com o fechamento do jornal na Revolução de 1924. Tem contato com Victor Brecheret (1894 - 1955), Anita Malfatti (1889 - 1964) e Sérgio Milliet
1924 - Paris (França) - Conhece obras, artistas e escritores europeus de vanguarda como Pablo Picasso (1881 - 1973), Jean Cocteau (1889 - 1963), Blaise Cendrars (1887 - 1961), Fernand Léger (1881 - 1955), Miguel de Unamuno (1864 - 1936), Georges Braque (1882 - 1963), Henri Matisse (1869 - 1954), e outros
1925 - Rio de Janeiro RJ - Retorna ao Brasil
1926 - Colabora como jornalista e ilustrador no Diário da Noite
1926 - São Paulo SP - Ilustra a capa da obra O Losango Cáqui, de Mário de Andrade
1927 - Colabora como desenhista no Teatro de Brinquedo, de Eugênia e Álvaro Moreyra (1888 - 1964)
1928 - Filia-se ao Partido Comunista do Brasil - PCB
1929 - Rio de Janeiro RJ - Decora o foyer do Teatro João Caetano
1932 - São Paulo SP - É preso durante três meses como getulista pela Revolução Constitucionalista
1932 - São Paulo SP - É um dos fundadores do Clube dos Artistas Modernos - CAM, liderado por Flávio de Carvalho (1899 - 1973), com a participação de Antonio Gomide (1895 - 1967) e Carlos Prado (1908 - 1992)
1933 - Rio de Janeiro RJ - Escreve artigo no Diário Carioca, de 15 de outubro, sobre as relações entre o trabalho artístico e a problemática social, a propósito da exposição de Tarsila do Amaral
1933 - São Paulo SP - Publica o álbum A Realidade Brasileira, série de doze desenhos satirizando o militarismo da época
1935 - Rio de Janeiro RJ - No fim do ano, por razões políticas, refugia-se com a esposa, Noemia, e Newton Freitas na casa de Battistelli (exilado no Brasil, antifascista ligado a Plínio Melo e Mário Pedrosa), em Mangaratiba
1935 - Rio de Janeiro RJ - Participa do comitê de redação do semanário Marcha, na sala de um edifício na Cinelândia, ao lado de Caio Prado Júnior (1907 - 1990), Carlos Lacerda (1913 - 1990), Newton Freitas e Rubem Braga (1913 - 1990)
1938 - Paris (França) - Trabalha na rádio Diffusion Française nas emissões Paris Mondial em língua portuguesa, com Noêmia Mourão
1946 - Paris (França) - Segue para a capital francesa com o objetivo de encontrar obras e quadros abandonados em 1940
1946 - Rio de Janeiro RJ - Tem dois poemas publicados na Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, organizada por Manuel Bandeira (Ed. Z. Valverde)
1947 - Participa do júri de premiação de pintura na exposição do Grupo dos 19, com Anita Malfatti e Lasar Segall (1891 - 1957)
1948/1949 - Europa - Regressa à Europa por seis meses
1949/1950 - México - Participa do Congresso de Intelectuais pela Paz, representando o Partido Comunista
1951 - Rio de Janeiro RJ - Ministra curso de cenografia, no Serviço Nacional de Teatro
1952 - São Paulo SP - Doa mais de 550 desenhos, produzidos ao longo de trinta anos de carreira, ao Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP
1952 - São Paulo SP, Rio de Janeiro RJ - Faz charges para o jornal Última Hora de São Paulo. No Última Hora do Rio de Janeiro, escreve a coluna Preto no Branco e executa cinco painéis para a redação do jornal
1954 - São Paulo SP - Cria figurinos para o balé A Lenda do Amor Impossível, encenado pelo Corpo de Baile do 4º Centenário
1955 - Rio de Janeiro RJ - Publica Viagem da Minha Vida: Memórias, primeiro livro de memórias, em três volumes: V. 1 O Testamento da Alvorada - V. 2 O Sol e as Estrelas - V. 3 - Retrato de Meus Amigos e... dos Outros, editado pela Editora Civilização Brasileira
1955 - Rio de Janeiro RJ - Recebe convite para realizar cenário e figurinos do balé As Cirandas, de Villa-Lobos (1887 - 1959), pelo Corpo de Baile do Municipal
1958 - Brasília DF - Pinta a via-sacra para a Catedral de Brasília
1958 - Paris (França) - Executa cartões para tapeçarias do Palácio da Alvorada (salões de música e de recepção), encomendados por Niemeyer
1959 - Recebe de Carlos Flexa Ribeiro o título de O Patriarca da Pintura Moderna Brasileira
1960 - Cidade do México (México) - Realiza painel sobre tela para os escritórios da Aviação Real
1962 - Paris (França) e Moscou (Rússia) - Participa do Congresso da Paz
1963 - Paris (França) - Indicado pelo presidente João Goulart (1919 - 1976) para o cargo de adido cultural do Brasil. Não toma posse do cargo em virtude do golpe de 1964
1964 - Rio de Janeiro RJ - Desenha jóias executadas pelo joalheiro Lucien Joaillier
1964 - Rio de Janeiro RJ - Publica Reminiscências Líricas de um Perfeito Carioca - ilustrações e texto, editado pela Editora Civilização Brasileira
1969 - Ilustra os bilhetes da Loteria Federal das extrações da Inconfidência Mineira, São João, Independência e Natal
1971 - Recebe o Prêmio Associação Brasileira de Críticos de Arte - ABCA
1972 - Salvador BA - Publica o álbum 7 Xilogravuras de Emiliano Di Cavalcanti, pela Editora Chile, apresentação de Luís Martins
1972 - Recebe o Prêmio Moinho Santista
1973 - Salvador BA - Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal da Bahia - UFBA
1976 - São Paulo SP - A prefeitura muda o nome da Rua 4, no Alto da Mooca, para Rua Emiliano Di Cavalcanti
1987 - Rio de Janeiro RJ - Publicação de livro com as cartas escritas pelo artista, Cartas de Amor à Divina / E. Di Cavalcanti editado pela Cor Editores
Atualizado em 15/12/2005
Fonte: Itaú Cultural
Minha prima Dida
Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, nasceu no Rio de Janeiro em 1897 e faleceu na mesma cidade em 1976. Era filho de Frederico Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo e d. Rosalia de Sena e, embora bem relacionada, a família tinha parcos recursos econômicos.
Em homenagem a uma prima conhecida por Dida, adotou o nome artístico de Didi e depois, por simplificação, passou a assinar simplesmente Di.
Nasceu na Rua do Riachuelo, no velho centro do Rio, na casa do célebre abolicionista José do Patrocínio, que se casara com sua tia Maria Henriqueta vencendo todos os preconceitos da família desta, pelo fato de ser negro.
Menino ainda, na casa do tio, conheceu gente famosa, como Machado de Assis e Joaquim Nabuco. Sua mãe, quando viúva, chegou a entreter um flerte com Olavo Bilac, com o qual, por pouco, não se casou.
Essa presença constante de escritores e poetas em torno a Di Cavalcanti, na infância, explica decerto porque, pela vida inteira, ele devotaria às letras um amor quase tão profundo quanto à pintura.
Antes de tudo,
um desenhista
Seus primeiros desenhos, como os primeiros versos, surgiram em São Cristóvão, bairro de classe média, para onde sua família se mudara em 1908.
Gaspar Puga Garcia, seu primeiro professor de pintura, acompanhando os progressos do menino, vaticinou certeiramente: «Você será pintor.»
Poucos anos mais tarde, em 1914, tem início a carreira de caricaturista de Di, que nesse ano publica seu primeiro trabalho em Fon-Fon.
Dois anos depois participou do 1º Salão dos Humoristas, organizado por Luís Peixoto e Olegário Mariano no Rio de Janeiro.
No Jornal do Commercio de 19 de novembro de 1916, comentando o Salão, aberto uma semana antes, escrevia um anônimo comentarista de arte:
«São dignos de exame alguns trabalhos de um jovem que se estréia com o pseudônimo de Di.»
As arcadas, as redações
e a boemia
No mesmo ano de 1916, Di Cavalcanti matriculou-se na Escola Livre de Direito. Logo depois mudava-se para São Paulo, levando uma carta de apresentação de Olavo Bilac para o jornalista Nestor Rangel Pestana, crítico de arte do Estadão.
Emprega-se como arquivista em O Estado de São Paulo - após ter sido marcador e vendedor de dormentes em Ribeirão Preto -, freqüenta as aulas de direito nas arcadas do Largo de São Francisco mas, sobretudo, desenha, e descobre a vida:
«Eu, que deveria continuar meu curso de Direito, fiquei entre as aulas do vetusto casarão, as redações dos jornais, os cafés boêmios, as livrarias, as pensões de mulheres.»
Arroubos socialistas
Nessa fase inicial de sua existência, Di Cavalcanti atravessa dificuldades, mas vai-se tornando, pouco a pouco, um homem.
Aos 21 anos, tem a revelação do Socialismo, pelos ecos que aqui chegam da Revolução Russa de 1917; presencia a exposição de Anita Malfatti e a grande greve operária deflagrada em São Paulo, e, num arroubo lírico, quer alistar-se como voluntário em defesa da França.
Não ficou no prejuízo. Impedido de concretizar o alistamento, «deixou-se ficar nos braços das francesas», como ele mesmo escreveria em seu livro de memórias. Com efeito, mulheres, francesas ou mulatas, não importa, sempre formaram parte importante de sua obra.
A primeira exposição
individual
Di Cavalvanti era um freqüentador assíduo de livrarias, que representaram, na primeira metade do Século 20, um polo importante de dissiminação das artes, por falta de galerias especializadas. Pois é em uma delas, a Editora do Livro, que, naquele ano de 1917, ele realizará sua primeira individual.
Até então, ele era mais conhecido como desenhista e caricaturista, com participações em revistas da época. Havia bem pouco tempo que começara a pintar, e era ainda aquele «menestrel dos tons velados» ao qual se referira, na dedicatória de um livro, Mário de Andrade.
As primeiras mulheres
Seu veículo predileto era então o pastel, do qual se utilizava para retratar figuras femininas, «da angelitude então em voga».
Lado a lado, porém, com essas «místicas fugas da realidade», o futuro grande pintor «punha já em valor certos caracteres depreciativos do corpo feminino, denunciava nos seus tipos uma psicologia mais propriamente safada que extravagante, com uma admirável acuidade crítica de desenho» (Mário de Andrade).
O ilustrador
Passou a freqüentar, em 1918, o ateliê de George Fischer Elpons, que fora também professor de Anita Malfatti. Sua pintura passou, deste então, a ganhar uma característica mais amadurecida, na medida em que abandonava a conotação anterior, estudantil e literária, ganhando uma feição moderna e nitidamente profissional.
Bem relacionado na mídia e nos círculos sociais, Di era encontrado, alternadamente, em São Paulo ou no Rio de Janeiro, freqüentando tanto os círculos artísticos de vanguarda como as rodas boêmias, numa e noutra cidade.
Em 1919 ilustrou A Balada do Enforcado, de Oscar Wilde, na tradução de Elisio de Carvalho, e, em 1921, apareceu seu álbum Fantoches da Meia-Noite, com prefácio de Ribeiro Couto: num e noutro trabalhos é flagrante a filiação estilística a Aubrey Beardsley, o ilustrador original de Wilde (conheça o estilo deste ilustrador).
A Semana de
Arte Moderna
O ano de 1922 é de importância fundamental tanto para a arte moderna brasileira quanto para a carreira do pintor, de quem partiria inclusive a idéia, dada a Paulo Prado, para a realização de uma Semana de Arte Moderna, «uma semana de escândalos literários e artísticos.»
Realizada a Semana, Di Cavalcanti fica por algum tempo desnorteado. É ele que, mais tarde, fará uma autocrítica irônica e bem humorada:
«Eu era um esnobe, não posso negar. Me considerava o tal, porque ilustrava as obras de Oscar Wilde, sabia mais literatura que os outros, tinha contato com os intelectuais, e ainda possuía uma amante italiana que abandonara o teatro por minha causa.
«A Semana - coitada - só veio agravar meu quadro geral. Fiquei muito pior, e fugir disso, então, passou a ser uma necessidade.
«O próprio Brasil, para mim, passara a ser apenas uma multiforme nação irreal, que me levava a rir, às gargalhadas, de tudo, principalmente da velha Academia de Direito. Larguei tudo e fui para Paris.»
Noites Parisienses
Paris era, naquele momento, o grande referencial da arte moderna, passagem obrigatória e ponto de encontro dos artistas emergentes de todo o mundo. É para lá que vai Di Cavalcanti em 1923, com 26 anos, após vender uns poucos quadros que lhe garantiram as despesas de viagem.
Como precisava também garantir algum dinheiro para seu sustento e permanência na cidade, procurou Edmundo Bittencourt, diretor-proprietário do Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, grande incentivador das artes, com quem acertou a remessa periódica de artigos para publicação em seu jornal.
«Lá andava eu, em Paris, para um lado e para outro; trabalhava na pintura no meu pequenino ateliê de Montparnasse e rodava pelas ruas procurando reportagens para o Correio.»
O impacto dos velhos
mestres da Itália
Numa breve viagem à Itália, então, descobre os Velhos Mestres, que lhe causam tremendo impacto, trazendo nova crise de identidade:
«Quando volto a Paris quero abandonar para sempre a pintura. Sinto em mim a ressonância do colorido do Ticiano, a força teatral de Michelangelo. Da Vinci! Todos me destruindo, empurrando-me para um anonimato, para uma pobreza moral infinita!»
Por algum tempo cursa a Academia Ranson, conhecendo em seguida intelectuais como Jean Cocteau, Blaise Cendrars, Paul Eluard, André Breton, Leon Paul Fargue e Miguel de Unamuno. Lá conviveu com músicos como Darius Milhaud, Poulenc, Auric e Satie;
Mas, sobretudo, teve contato com artistas como Léger, Marx Ernst, De Chirico, Matisse, Braque e principalmente Picasso.
O grande mestre
da Espanha
Por volta de 1924, segundo Sergio Milliet, Di Cavalcanti «dedicava-se conscienciosamente ao estudo da maneira monumental de Picasso, que tanto o enriqueceu e que foi o primeiro a transpor, através de uma originalidade indiscutível, para o assunto brasileiro.»
Essa influência picassiana fez-se sentir de modo tão intenso e, por outro lado, tão duradouro, na obra de Di, que críticas ferinas e mesmo acusações de plágio foram, volta e meia, assacadas contra o pintor brasileiro, muito embora o crítico Luís Martins, estudando esse delicado capítulo das relações estilísticas entre Di e Picasso, tenha aparentemente esclarecido a questão:
«Compreende-se que se sentisse impressionado, quando, em sua primeira viagem à Europa, em 1923, deparou com as mulheres monumentais de Picasso - o Picasso que se evadia das linhas frias, severas e angulosas do cubismo, para as curvas sensuais e exuberantes de sua fase neoclássica.
Cigano magnífico e
feias mulheres
«Mas, se esse encontro com o grande pintor espanhol constitui provavelmente, para o brasileiro, uma revelação do seu próprio temperamento, sugerindo-lhe uma forma de exprimir plasticamente o que há de ondulante, macio, cálido e maternal no corpo feminino, força é confessar que a personalidade do nosso artista não se deixou subjugar pela outra, mais amadurecida, do mestre consagrado.
«O que há em Di Cavalcanti de intrinsecamente brasileiro, ou melhor, de carioca, levou-o a uma interpretação pessoal, a uma espécie de tradução para o mulato das mulheres clássicas e um pouco olímpicas de Picasso, dando-lhes um frêmito, uma languidez e uma indolência que elas não tinham.»
Di Cavalcanti, ele próprio, não escondeu jamais o que devia a Picasso, e, referindo-se ao seu conhecimento com o artista, assim declarou numa entrevista:
«Conheci-o fazendo uma reportagem para o Correio da Manhã. Ficamos camaradas, mas eu não quis saber dele porque o achava muito sério.
«Aliás, não gosto de conviver com pintores. São uns chatos, os maiores chatos que conheço. No entanto, fui amigo de Picasso até a morte dele. Mas em matéria de mulher, por exemplo, modéstia à parte, sou mais eu, anti-picassiano.
«Nunca soube o que se passava na cabeça dele, daquele cigano magnífico, mas o fato é que ele não servia para fazer mulher bonita. Era sempre mulher com um olho a mais ou a menos, um nariz de lado. Saía sempre um Picasso bonito, mas nunca uma mulher bonita.»
Decepção com
o comunismo
Com a Revolução de 1924, o Correio da Manhã foi fechado e Di Cavalcanti viu-se forçado a regressar ao Brasil. Ei-lo novamente no Rio de Janeiro, em 1925, renovando um contato que se revelaria indispensável ao amadurecimento de sua produção.
Mesmo afirmando em suas memórias que, entre 1925 e 1935, não se lembrava de ter feito muita coisa importante, o fato é que datam de 1929 os dois admiráveis murais que realizou para o Teatro João Caetano, do Rio de Janeiro - obras poderosas, nas quais seu talento se afirma de modo pessoal e vigoroso.
Já em 1928 ingressara no Partido Comunista, levado por sua fé na justiça social. Mas em 1931 verificava, aturdido, não poder ser jamais "um bravo comunista: entre a minha liberdade individual e as regras partidárias abriam-se abismos".
Cinco anos longe
da pátria
Retornando em 1935 a Paris, ali permaneceu até 1940, quando, com a queda da capital francesa em poder dos nazistas, vê-se novamente forçado a voltar para o Brasil.
Esteve perigosamente afastado, durante mais esses cinco anos, da realidade brasileira, das mulatas que ama, do carnaval de que se nutre a sua pintura, com suas cores e odores fortes de negros fantasiados de príncipes russos e de índios sarará.
Mesmo assim, Di Cavalcanti permaneceria autenticamente brasileiro e, mais ainda, carioca, já que levava dentro de si todas essas cores, cheiros e memórias. Durante essa nova estada parisiense, algumas de suas pinturas são adquiridas para os museus do Jeu de Paume, em Paris, de Haia e de Grenoble.
A produção em massa e a
comercialização da arte
A partir da década de 1940, a personalidade de Di Cavalcanti atinge finalmente sua plena maturidade: aos 43 anos, em 1940, quando volta definitivamente ao Brasil, o artista é já um nome conhecido e respeitado dentro e até fora do País. Mas é também a partir da década de 1940 que Di começa a se repetir, conforme observação de José Mindlin:
«A partir daí (1940) deve-se reconhecer que sua obra passou a ser bastante repetitiva, e seu lançamento e valorização no mercado, por marchands habilidosos, resultou numa produção comercializada, em que, a despeito de muitos trabalhos bons, a qualidade freqüentemente não correspondia ao talento.
«Sendo um de nossos grandes pintores, com Portinari, Segall e Volpi, sua obra é desigual, especialmente a partir de 1950, o que sua personalidade explica, mas não deixa de ser lastimável.»
Di negava essa tendência à comercialização do seu talento:
«Dizem que me tornei mais comerciante que artista. Bobagens. Sou um artista... mas um homem também. Preciso de dinheiro para o homem e tempo livre para o artista. Preciso de dinheiro para minha alegria e minha tristeza.»
Amando a vida
mais que a arte
Di Cavalcanti tem uma produção rara e espetacular em volume, cerca de 5.000 obras.
É compreensível, pois, que nem tudo lhe tivesse saído de primeiríssima qualidade, até porque não era do seu temperamento essa preocupação para com a qualidade de seus quadros.
Isso ele mesmo comentou com Mário de Andrade, numa carta de 1930:
«Mário, felizmente eu não me apresso, não quero nunca realizar obras-primas como quis o Brecheret, o Villa e mesmo já o Celso Antonio, o que acontece é que eles, sem autocrítica, já estão paus. E eu me sinto de uma mocidade comovente.
«Não é orgulho, é vaidade. Eles não amam a vida. Amam a arte como a um mito. E eu amo sobretudo a vida, esta vida que vem, como os calores sexuais, de baixo para cima…»
O pintor viveu alternadamente entre São Paulo e Rio de Janeiro, mas sua obra percorreu o Brasil e o mundo, expondo também no Uruguai, na Argentina, no México e nos Estados Unidos.
As grandes premiações
Di Cavalcanti recebeu importantes premiações ao longo de sua carreira, destacando-se:
Medalha de ouro conquistada em 1937 na Exposição de Paris (com a decoração do pavilhão da Companhia Franco-Brasileira).
Prêmio Melhor Pintor Brasileiro, que dividiu com Volpi na II Bienal de São Paulo, em 1953.
Primeiro prêmio da Mostra de Arte Sacra de Trieste, Itália, em 1956.
Medalha de ouro da II Bienal Interamericana do México, em 1960 - na qual teve aliás sala especial.
O MAM-RJ, em 1954, a 7ª Bienal de São Paulo, em 1963, e o MAM-SP, em 1971, dedicaram-lhe retrospectivas, destacando-se por sua importância esta última, na qual foram expostas 476 obras de todas as fases.
Atividade frenética
No entretempo de toda essa atividade, Di Cavalcanti ama, desenha, pinta, escreve poemas, lê, casa, descasa, viaja sempre a Paris, realiza desenhos para jóias e tapeçarias, ilustra em 1969 os bilhetes para as quatro extrações principais da Loteria Federal do Brasil, ou simplesmente vagabundeia por bares e restaurantes, boêmio que foi até o fim da vida.
Publicou dois livros de memórias, entremeados de poemas: Viagem da Minha Vida - O Testamento da Alvorada (1955) e Reminiscências Líricas de um Perfeito Carioca (1964).
Ilustrou numerosos livros (Carnaval, de Manuel Bandeira, 1919; Losango Cáqui, de Mario de Andrade, 1926; A Noite na Taverna e Macário, de Alvares de Azevedo, 1941; etc.)
Executou murais em Belo Horizonte, Brasília (Câmara dos Deputados), Rio de Janeiro (Banco do Estado do Rio de Janeiro, Banco Lar Brasileiro, etc.) e São Paulo (Aeroporto de Congonhas, O Estado de São Paulo).
Editou também álbuns de gravuras, embora ele mesmo não as gravasse: Lapa, xilogravuras, 1956; Cinco Serigrafias, 1969, Sete Flores, com texto de Carlos Drumond de Andrade, 1969.
O pintor das coisas
nacionais
Sobre a arte de Di Cavalcanti, já Mário de Andrade se pronunciara, há cinqüenta anos, de maneira extraordinariamente lúcida, ao dizer:
«Di Cavalcanti conquistou uma posição única em nossa pintura contemporânea. Em nossa pintura brasileira. Sem se prender a nenhuma tese nacionalista, é sempre o mais exato pintor das coisas nacionais.
«Não confundiu o Brasil com paisagens; e em vez do Pão-de-Açúcar nos dá sambas; em vez de coqueiros, mulatas, pretos e carnavais.
«Analista do Rio de Janeiro noturno, satirizador odioso e pragmatista das nossas taras sociais, amoroso contador das nossas festinhas, mulatista-mor da pintura, este é o Di Cavalcanti de agora, mais permanente e completado.»
A mulata é o símbolo
do Brasil
Mulatista-mor da pintura... Será que Di Cavalcanti aceitava de bom grado a denominação, que lhe foi dada, de Pintor das Mulatas? É provável que sim:
«A mulata, para mim, é um símbolo do Brasil, Ela não é preta nem branca. Nem rica nem pobre. Gosta de dança, gosta de música, gosta do futebol, como o nosso povo. Imagino ela deitada em cama pobre como imagino o país deitado em berço esplêndido.
«A mulata é o feminino e o Brasil é um dos países mais femininos do mundo. Não temos o machismo do México, o Brasil gira em torno das mulheres...»
A propósito, escreveu o crítico Frederico Morais, por ocasião da retrospectiva de 1971 no MAM-SP, uma das análises mais perspicazes da arte de Di Cavalcanti:
«Em nenhum outro artista brasileiro, a mulata recebeu tratamento pictórico tão alto e tão digno. Sem paternalismos, sem menosprezo. Di deu-lhe a dignidade da madona renascentista, madonizou a nossa mulata, o que não é o mesmo que mulatizar a madona, como o fez Athayde no céu barroco de Minas.
«Altaneiras, monumentais quase sempre, alegres ou sonhadoras, em devaneios - o gato no colo, a flor sobre o busto - apenas por alguns momentos o olhar parece triste ou vago. Porque, hedonista nato, amoroso da vida e das pessoas, Di não se deixa abater pelos problemas existenciais, pela inquietação política ou social. Coisas mais próprias para os espíritos magros.»
Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira